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Mais cursos de Psicologia significam, necessariamente, melhor formação?


A Região do Cariri Cearense vive um momento histórico para a Psicologia. Atualmente, seis instituições de ensino superior oferecem o curso de graduação na região e uma sétima aguarda autorização do Ministério da Educação para iniciar suas atividades.


Foto: Arquivo pessoal de Daniela Coelho Andrade
Foto: Arquivo pessoal de Daniela Coelho Andrade

À primeira vista, esse cenário pode ser interpretado como um importante avanço: mais vagas, maior acesso ao ensino superior e ampliação das oportunidades para quem deseja ingressar na profissão. Sem dúvida, democratizar o acesso à formação é uma conquista. Entretanto, o crescimento do número de cursos desperta uma reflexão igualmente importante: estamos formando mais psicólogos, mas estamos formando os profissionais de que a sociedade realmente precisa?


SESA
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Essa pergunta ganha ainda mais relevância quando observamos a realidade epidemiológica do próprio Cariri. De acordo o Boletim Epidemiológico: Mortalidade por Suicídio no Estado do Ceará, 2010-2024 (nº 30 | Setembro/2025), a região apresentou uma das maiores taxas de mortalidade por suicídio do estado entre 2010 e 2024, com tendência de crescimento a partir de 2017, alcançando seu maior coeficiente em 2022 e mantendo índices elevados nos anos seguintes. O próprio boletim epidemiológico da SESA identifica o Cariri como uma das regiões prioritárias para o fortalecimento das estratégias de prevenção do suicídio.


Diante dessa realidade, torna-se inevitável perguntar: se uma das principais demandas de saúde pública da região envolve o comportamento suicida, por que esse tema ainda não ocupa um espaço obrigatório na formação de todos os futuros psicólogos?


As Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Psicologia oferecem um caminho para essa reflexão. A Resolução CNE/CES nº 1/2023 estabelece que a formação deve estar comprometida com a promoção da saúde, com as políticas públicas e com as demandas sociais concretas. Também determina que os Projetos Pedagógicos dos Cursos considerem as características da região onde estão inseridos e as necessidades contemporâneas da população. Em outras palavras, a formação não deve ser construída de forma abstrata, mas dialogar com a realidade em que o futuro profissional irá atuar. O Código de Ética Profissional do Psicólogo reforça essa responsabilidade ao afirmar que o exercício profissional deve estar fundamentado na promoção da saúde, na responsabilidade social e no aprimoramento técnico permanente. O documento também estabelece que o psicólogo deve assumir apenas atividades para as quais possua capacitação teórica, técnica e científica, oferecendo serviços fundamentados no conhecimento produzido pela Psicologia.


Esses documentos mostram que a discussão não diz respeito apenas ao currículo universitário. Trata-se de uma questão ética e social. Quanto maior o número de profissionais formados, maior também é a responsabilidade das instituições em garantir que esses egressos estejam preparados para enfrentar problemas que afetam diretamente a população.


Defender a inclusão obrigatória da Suicidologia na graduação, portanto, não significa transformar todos os estudantes em especialistas na área. A especialização continuará sendo um percurso importante para quem desejar aprofundar seus conhecimentos. O que se propõe é algo mais elementar: que todo psicólogo conclua sua graduação dominando competências mínimas para reconhecer fatores de risco e de proteção, realizar uma avaliação inicial do comportamento suicida, acolher pessoas em sofrimento e orientar suas redes de apoio, manejar situações de crise dentro dos limites de sua atuação profissional e realizar encaminhamentos qualificados quando necessários.


Essa formação básica é compatível com o perfil generalista previsto nas Diretrizes Curriculares Nacionais e fortalece a segurança técnica do futuro profissional. Mais do que acrescentar uma disciplina ao currículo, significa reconhecer que o comportamento suicida faz parte da realidade cotidiana dos diferentes contextos de atuação da Psicologia, seja na clínica, na atenção primária, nos hospitais, nas escolas, nas empresas, na assistência social, no sistema de justiça ou nas políticas públicas.


A expansão dos cursos de Psicologia representa uma excelente oportunidade para fortalecer a profissão. Entretanto, o verdadeiro indicador de sucesso não será apenas o número de diplomas emitidos, mas a capacidade desses novos profissionais de responder, com competência técnica, responsabilidade ética e compromisso social, às necessidades concretas da população.


No Cariri, onde convivem o crescimento acelerado da oferta de cursos de Psicologia e uma persistente realidade de mortalidade por suicídio, essa reflexão torna-se ainda mais urgente. Formar mais psicólogos é importante. Formá-los preparados para preservar vidas é indispensável.



Instituto de Suicidologia do Cariri – CRP 11/0575

Daniela Coelho Andrade – Psicóloga RT: CRP 11/08656

📱 WhatsApp: (88) 9 9751-0037


📍 Clínica João Paulo II - Rua Coronel Teófilo Siqueira, 634, Centro, Crato-CE


Fontes:


Brasil. (2019, 26 de abril). Lei nº 13.819, de 26 de abril de 2019. Institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio e estabelece a notificação compulsória do caso de tentativa de suicídio e de automutilação à autoridade sanitária. Diário Oficial da União. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Lei/L13819.htm


Brasil. Ministério da Educação (2023, 11 de outubro). Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução CNE/CES nº 1, de 11 de outubro de 2023. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de graduação em Psicologia e dá outras providências. Diário Oficial da União. https://www.gov.br/mec/pt-br/cne/resolucoes/resolucoes-cne-ces-2023


Conselho Federal de Psicologia. (2005). Código de ética profissional do psicólogo. https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/07/codigo-de-etica-psicologia.pdf


Conselho Federal de Psicologia. (2013). O suicídio e os desafios para a Psicologia (1a ed.). https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2013/12/Suicidio-FINAL-revisao61.pdf


Scavacini, K. (2022). Suicídio - um problema de todos: Como aumentar a consciência pública na prevenção e na posvenção. Sinopsys Editora.


Secretaria da Saúde do Estado do Ceará. (2025). Boletim epidemiológico nº 30: Mortalidade por suicídio no Estado do Ceará, 2010–2024. SESA.

 
 
 

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